sexta-feira, 24 de maio de 2013

A Igreja

Ariovaldo Ramos

“E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coracao” At 2.46

Ele era um nobre romano fiel ao imperador, orgulhoso do império. Há alguns dias ele não estava bem. A vida estava um emaranhado que parecia pior que o nó górdio. Ele não descansava, não dormia mais, não sabia mais o que era paz. Já havia oferecido sacrifício a todos os deuses que conhecia... e nada se resolvera, a vida não saia do lugar. O pior era angústia.

Um de seus muitos escravos se aproximou dele, com muito cuidado, e lhe perguntou se poderia interceder por ele junto ao seu Deus. O cônsul, acostumado a um mundo de deuses, perguntou a que Deus o escravo se referia e que tipo de holocausto teria de ser prestado. E foi surpreendido pela resposta de que o holocausto era o próprio Deus, portanto, nada custaria, e que o nome do Deus, era Jesus. E, mais, que Jesus era a encarnação do único Deus do Mundo.

O nobre achou a resposta, em extremo, petulante, mas, pensou: Pior do que está não pode ficar.  Então, concordou com a oração. Outra surpresa! A oração, simples e direta, foi realizada ali mesmo, no recinto, sem necessidade de qualquer sacerdote, pelo escravo mesmo, que ousou impor as mãos sobre o seu proprietário.

Como ele havia autorizado, controlou a indignação, e se retirou arrependido de ter permitido tal insânia. Como já era noite, dirigiu-se para o seu quarto, para mais uma tentativa, que ele sabia inglória, de dormir. Há muito ele não sabia o que era dormir.

A noite passou rápida, muito mais rápida do que de costume, e ele só se deu conta quando um de seus escravos entrou no quarto, abriu as cortinas e  lhe anunciou o dia. Sim, ele dormira como nunca,  como não sabia mais ser possível!

Imediatamente, mandou chamar ao escravo que orara por ele. Tão logo entra o homem, ele corre para agradecer, perguntando como poderia pagar àquele Deus por tão grande graça. O escravo reitera que nada custava, mas, ele poderia participar da reunião que seria feita naquela noite, em louvor ao Deus Jesus.

O nobre recuou, disse que iria pensar, e dispensou o escravo.

Passou o dia a pensar, já tinha ouvido falar dessa nova seita, vinda da Judéia, que dizia que o Deus invisível dos Judeus se fez visível, porque se encarnou, que foi morto pelo império romano, mas, que segundo os seus seguidores, tinha ressurgido três dias depois de sua crucificação.

Sabia que tal seita não gozava da simpatia do império, por insistir na adoração a um Deus só. É verdade que os judeus já o faziam, mas, os judeus mantinham a coisa entre eles, e com tantas exigências, que as conversões não incomodavam, mas esses tinham um caráter universal e, de certa forma, eram um tipo diferente de revolucionários.

Ele não podia negar, entretanto,  que dormira, depois de muito tempo, e, mais, estava se sentindo como nunca se sentira, como se houvesse tocado, ou sido tocado por algo, ou alguém acima e além. Decidiu que o mínimo que poderia fazer era agradecer.

O ambiente da reunião era indescritível, todos sorrindo, cantando, saudando-se, todos escravos, seus escravos, aliás, ele se deu conta de que todos os seus escravos estavam ali. Naquela noite, recebiam uma visita. Um judeu que havia andado com Jesus. Esse homem simples, sem pompa, com um sorriso cheio de felicidade, contou o que significara andar com Jesus e como Jesus andou.

Ele não sabia explicar, mas, no fim daquela explanação, tudo o que ele queria era, também, andar com Jesus. Quase simultâneo ao seu pensamento, o judeu disse que era possível andar com Jesus, porque, graças à ressurreição ele estava vivo e disposto andar com todos os seres humanos.

Ele pensou: Ah! Como eu gostaria! Mas, ele não vai me aceitar... eu sei como eu sou! De fato, naquele momento, sabia de si como jamais o soubera antes. 

O Judeu, que parecia ler o seu pensamento disse: Talvez você esteja pensando que Jesus jamais andaria com alguém como você, você está enganado, Jesus recebe a todos e, por causa de seu ato santificador na cruz, todos fomos perdoados, e como fruto de sua vitória, pela ressurreição, o Espírito Santo vem morar em nós e nos transforma em gente como Jesus.

Ele não conseguiu se manter sentado, num salto gritou: Eu quero! E, antes de que se desse conta, ele estava de joelhos, o Judeu, assim como alguns de seus escravos puseram a mão sobre a sua cabeça e alguém o abraçou.

Agora, de pé, ele não conseguia olhar para as pessoas que adquirira, como antes, ele nem conseguia mais se ver como seu. Ele sabia que aquelas pessoas eram suas irmãs, como ele os ouvira saudarem-se. E foi informado que os seus escravos, que colocaram as mãos sobre ele, eram os presbíteros daquela comunidade, que eles chamavam de a Igreja. E ele se juntou a eles pelo batismo.

Tudo estava diferente, eles comiam juntos, a fazenda era tocada como propriedade coletiva, a dignidade de todos foi reconhecida, não havia senhor e escravos, havia apenas irmãos. Todos moravam juntos com qualidade semelhante de vida. Ali, o Império Romano tinha acabado!

Um dia, na hora do almoço, o irmão, que não se via mais como nobre, recebeu a visita do cônsul com quem participara de algumas batalhas pelo império. O cônsul o surpreendeu à mesa com todos os que deveriam ser seus escravos, eram todos iguais e igualmente alegres e festivos. Uma alegria que o cônsul jamais imaginou que pudesse existir.

Num misto de surpresa e indignação o cônsul perguntou ao antigo companheiro de armas: O que está acontecendo aqui? Calmo, como o colega nunca o conhecera, o agora, mais um irmão em Cristo, respondeu: A Igreja, o que está acontecendo aqui é a Igreja.