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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Jesus contra o preconceito.

Texto :  João 4:1-34



O Pr. Neil Barreto disse que o jejum, que Jesus pede, é o de nos negarmos para seguí-lo, isto é, que façamos jejum de nós mesmos. Do que se alimenta aquele que faz o jejum que Deus pede? Do que se alimenta aquele que negou-se a si mesmo? O que lhe dá compensação pessoal? No que ele se realiza? Quero responder à essas perguntas a partir do diálogo de Jesus com a mulher da Samaria. 

Jesus estava, estrategicamente, a voltar para Galiléia, e decidiu passar por Samaria, o texto diz: “era-lhe necessário atravessar a província de Samaria” - não era uma necessidade geográfica, ou seja, esse não era o único jeito de chegar na Galileia partindo do sul. Ele podia ir para a Galiléia sem passar pela Samaria, até porque a relação entre judeus e samaritanos era muito ruim, e, portanto, era sempre arriscado atravessar as terras samaritanas. Porém, como o evangelho de João nos diz, “era-lhe necessário atravessar a província de Samaria”, então, eu concluo que foi uma determinação de Jesus, alguma orientação que Ele recebeu do Pai, de que Ele tinha de passar por Samaria. 

Era hora do almoço, Ele estava com sede e os discípulos foram comprar comida. Ele estava a beira de um poço, quando veio uma mulher samaritana buscar água. O horário que essa mulher foi buscar água era absolutamente impróprio, pois a região era semi-desértica, fazia muito calor, e as mulheres não iam buscar água na hora do almoço. O fato daquela mulher estar lá, por volta do meio dia, significava que ela tinha algum problema com a comunidade dela. Ou ela não andava com as mulheres da comunidade, porque haviam sido proibidas de andar com ela, ou ela decidiu que não iria andar com as mulheres. Não sei. Porém uma coisa é certa, algo havia acontecido.

Jesus está no poço, ela chega, e Jesus diz: “Da-me de beber!" Ao ouvir isso, a mulher reagiu: “Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber? Porque os judeus e os samaritanos não se davam." O que precisamos saber é que a situação era muito densa. Primeiro, um mestre não devia falar com uma mulher. Segundo, especialmente se fosse samaritana. Terceiro, um judeu não podia se alimentar ou beber em prato ou cuia de samaritano, pois, se isso acontecesse, ele ficaria quarenta dias sob maldição, impossibilitado de participar do culto a Deus.

O ódio dos judeus aos samaritanos era tão grande, que todo judeu, principalmente os fariseus, ao se levantarem de manhã, davam graças a Deus por não terem nascido nem mulher e nem samaritano. Por isso que, quando Jesus diz à mulher: “Da-me de beber", ele estava quebrando um grande preconceito, na verdade quatro: o primeiro preconceito, que Ele ele quebra, era o de falar com uma mulher, o segundo, era o de falar com alguém samaritano, o terceiro, era o de  pedir para beber água no mesmo copo que ela (o que o tornaria imundo para os judeus) e, o quarto, era discutir teologia com a mulher.

Quando a mulher diz “ Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber?”, Jesus se explica, e começa uma conversa teológica com a mulher, o que era absolutamente proibido, pois os mestres não podiam falar com as mulheres, e as mulheres não tinham o direito de receber nenhuma informação sobre a revelação, sobre as Escrituras e sobre a vontade de Deus. Essas verdades divinas, só podiam ser ditas aos homens, e eles as passavam para as mulheres (esposa, filhas, irmãs), pois elas não tinham acesso direto. 

Jesus começa a dizer para ela: “Se você conhecesse o dom de Deus e quem lhe está pedindo água, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva”. Água viva, naquela época era a forma de se referir à um rio de águas correntes. Ele quem puxa o assunto, Ele que chama a mulher para conversar sobre coisas espirituais, o que significa que Jesus está quebrando todos os padrões ao começar essa conversa. A mulher, dando continuidade à conversa diz: “ O senhor não tem com que tirar água, e o poço é fundo. Onde pode conseguir essa água viva?”  Ela está sob impacto de um homem judeu que pede para beber água do mesmo copo que ela, então, percebe que Ele está tratando de uma coisa espiritual e diz: “ és, porventura, maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, bem como seus filhos e seu gado?” E Jesus diz que era maior que Jacó ao dizer: “Quem beber dessa água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ao contrario, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna” . Ele estava falando do Espirito Santo, o que o faz quebrar outro preconceito, oferecendo o Espirito Santo para uma mulher samaritana (que é o cumprimento da profecia de Joel, que os judeus entenderam que era apenas para eles. Jesus oferece a profecia, que, portanto, seria apenas para os judeus, para a mulher samaritana). 

Com Jesus dando continuidade à conversa, a mulher responde: “Senhor, dê-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem precise voltar aqui para tirar água”. Nesse momento, parece que Jesus retoma á posição de mestre, e diz a ela: “Vá, chame o seu marido e volte”, ao que ela respondeu: “Não tenho marido” , e Jesus replicou: “Você falou corretamente, dizendo que não tem marido. O fato é que você já teve cinco; e o homem com quem agora vive não é seu marido. O que você acabou de dizer é verdade.” A mulher leva um susto e diz: “Vejo que és profeta!”. 

Agora, o que Ele diz dessa mulher é muito curioso, pois essa mulher teve cinco maridos. A gente tem, como a primeira impressão, a de que estamos tratando com uma mulher com um problema moral seríssimo, porém, não faz sentido pensar assim, porque ela teve cinco maridos, não cinco amantes. Ela devia ser uma mulher extraordinária, pois cinco homens quiseram se casar com ela. Mas, quatro maridos deram-lhe carta de divórcio, e o quinto, deve tê-la repudiado; ela se une a um sexto homem, mas esse homem não é seu marido. Do ponto de vista daquela tradição, tanto da judaica quanto da samaritana, ela estava em pecado, porque o quinto marido, provavelmente, a repudiou. Quando o sexto homem quis se casar com ela, mesmo assim, ele não pôde, pois ela havia sido repudiada, não havia recebido carta de divórcio, então, o relacionamento era tido como adulterino.

Que mulher extraordinária é essa, que cinco homens querem se casar com ela? E que mulher é essa que quatro homens deram-lhe carta de divórcio e o quinto, provavelmente, a repudiou? Não deve ser por questões morais, porque se fosse, ela não se casaria pela segunda vez... De jeito nenhum! Essa história de sucessivos casamentos, fruto do desejo que despertava, mesclada com sucessivas rejeições, parece que se explica por ela ser o tipo de mulher que ela demonstra ser, nesse diálogo com Jesus, uma mulher que tem opinião própria, o que, naquela época, era o mesmo que ofender séria e profundamente a um homem. 

Me lembro que, certa feita, os organizadores de um congresso de missões, trouxeram do Oriente Médio, um ex muçulmano convertido à Cristo, que era uma espécie de consultor para missionários ocidentais que queriam ir para o Oriente Médio, que sempre era chamado para dar treinamento a esses missionários. 

Naquele congresso especifico, algumas irmãs pediram para ter uma reunião com ele, pois queriam saber como poderiam ir para o Oriente Médio para evangelizar as mulheres. Esse irmão, então, começou a aula para as mulheres dizendo que elas nunca iriam conseguir evangelizar as mulheres do mundo dele. Quando elas perguntaram, por quê? Ele disse “Porque as senhoras estão olhando nos meus olhos, me fazendo uma pergunta direta, e não pediram licença para fazer a pergunta. Isso é inadmissível para uma mulher na minha cultura. Elas estariam olhando para o chão, não me contestariam, e pediriam permissão para me fazer uma pergunta”. 

Essa mulher samaritana tinha essa postura, reprovada pelo consultor missionário, de quem não se submete facilmente, de que tem opinião própria, de quem quer participar, e isso era um tabu. E vemos isso na forma como ela fala com Jesus, se contrapondo a Ele: “Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber?”. Quando ela diz: “acaso o senhor é maior do que o nosso pai Jacó?”, vemos a percepção teológica dessa mulher. Ela sabe que está diante de um milagre, pois, aquele poço tinha mais de mil anos, e continuava a dar água.  

Ao ser perguntado se era maior que Jacó, Jesus responde, como se dissesse: “Sou, pois que o eu ofereço é Vida Eterna, e Jacó não tinha como oferecer isso”. Assim que a mulher disse que queria da água, Jesus pede para ela chamar seu marido, ao que ela revela que não tinha marido. É como se ela dissesse: não tenho ninguém a quem chamar, não chamarei ninguém, se quiser falar sobre algo comigo, faça-o a mim, ou não o fará. Essa senhora parece mais uma precursora do que chamaríamos, hoje, de emancipação feminina.

Quando aquela mulher disse a Jesus que não tinha marido, foi surpreendida por Jesus que disse: “é verdade, pois, esse que está com você, agora, não é seu marido, isso você falou com verdade”. Estamos diante de uma mulher especial, sofrendo o tabu da sua geração. 

Porém, ela está sendo salva por um Deus que quebra tabus, desconsidera preconceitos e liberta os homens dos efeitos destes preconceitos, assim como clama aos preconceituosos que se arrependam, enquanto é possível. Preconceito é o supra-sumo da auto veneração. Qualquer pessoa que discrimine a outro ser humano é réu do inferno.

Jesus começa a dizer-lhe algo que ela jamais esperaria ouvir de um homem, ainda mais de um judeu, ainda mais de um mestre. Ela diz, “senhor, vejo que tu és profeta. Nossos pais adoravam neste monte, vós, entretanto dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar” e Jesus lhe disse, “Mulher, podes crer que a hora vem quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai, vós adorais o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos porque a salvação vem dos judeus, mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espirito e em verdade porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espirito, e importa que seus adoradores o adorem em espirito e em verdade”. Essa frase de Jesus é extraordinária, porque adorar não é cantar. Adorar, é pedir perdão para Deus. 

Quando ela diz “nossos pais adoravam nesse monte” está apontando para o monte Gerizim, onde as tribos do norte construíram um templo, que rivalizava com o templo de Jerusalem. Historicamente, o monte de Gerizim era o lugar mais adequado para construir um templo, pois quase tudo o que aconteceu na história de Israel em termos de adoração a Deus, aconteceu no monte Gerizim. Davi, entretanto, conquistou a terra dos Jebuzeus, conquistou o monte Sião, conquistou Jerusalém, e o Senhor decidiu que se poderia construir o templo em Jerusalem. 

O que se fazia no templo? A pessoa que ia no templo, tanto em Gerizim, quanto em Jerusalem, ia pedir perdão. Por que o sujeito está indo no templo? Porque ele quebrou a lei de Moisés e vai levar um animal para morrer no lugar dele. Adorar a Deus, é pedir perdão. 

E isso me parece absolutamente natural, porque tudo o que eu disser a Deus, não o alcança. Eu posso dizer que Deus é bom, mas o bom que eu sou capaz de dizer é infinitamente menor do que o bom que Deus é. Eu posso dizer que Deus é amor, mas o amor que eu sou capaz de dizer, é infinitamente menor que o amor que Deus é. Então quando é que a minha palavra realmente toca Deus? Quando eu digo a Ele: ‘ Me perdoa Senhor, faça em mim a tua vontade’. Isso é adorar a Deus.
Jesus diz para a mulher “O lugar de adorar é em Jerusalém, pois a Salvação vem dos judeus, nós recebemos a revelação, "mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espirito e em verdade”, ou seja, já chegou a hora, em que você vai poder pedir perdão a Deus a qualquer hora e em qualquer lugar. Porque Deus é espirito, então Ele está em todos os lugares, Deus não pode ser contido em lugar nenhum e em espaço algum. 

Se ela tivesse ido mais longe na conversa, poderia ter feito duas perguntas. A primeira pergunta seria: ‘então não precisa mais de templo?’ e Jesus diria ‘ não, não precisa mais de templo, nem em Jerusalém, nem no monte Gerizim. O templo passará a ser você e todo lugar.’ A segunda pergunta que ela poderia ter feito é:  ‘e quem vai morrer em meu lugar?’ E Jesus responderia: ‘eu morro no seu lugar’. 

Repare que essa mulher é brilhante, pois quando ela diz a Jesus “Nossos pais adoravam neste monte, vós, entretanto dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar” o que ela estava querendo dizer a Jesus era algo, como: ‘eu sei que tenho um problema para resolver com Deus, mas ninguém mais sabe aonde se resolve o problema com Deus, os nossos pais disseram que era em Gerizim, e vocês dizem que é em Jerusalém, ou seja, não se sabe, ao certo, de nada’

Jesus interrompe a mulher e diz algo, como: ‘você sabe sim, é lá em Jerusalém. Nós adoramos o que conhecemos e vocês adoram o que não conhecem, porque a salvação vem dos judeus’. O assunto é Salvação. Ele continua: ‘mas chegou a hora em que você vai poder pedir perdão a Deus em qualquer lugar’. 

A mulher diz algo parecido a: ‘eu sei, que muitas coisas vão mudar, QUANDO VIER O MESSIAS CHAMADO O CRISTO!’ Os fariseus não perceberam isso, e ela percebeu. O que ela parece dizer é:  ‘eu sei que tudo é provisório e somente o Messias, quando vier, nos anunciará todas as coisas, e trará o definitivo. Isso foi tão extraordinário, que ela “forçou” Jesus a se revelar! E ele diz: 'o Cristo sou EU. EU que falo contigo!' Jesus se revela como aquele que veio anunciar todas as coisas. 

Ela percebeu que tudo era provisório e que só havia um alguém capaz de mudar isso, de pôr fim à provisoriedade dessas coisas, e esse alguém era o Messias. É como se ela estivesse dizendo a ela estava dizendo a Jesus: ‘O senhor pode ser profeta, mas o senhor está indo longe demais. Só o Messias pode mudar isso’, e Jesus responde, algo como: ‘exato! Eu sou o Messias, eu vim para mudar todas as coisa!’ 

Jesus quebrou muitos preconceitos nesse texto. Primeiro, o dos judeus com os samaritanos ao conversar com uma mulher samaritana; depois, o dos homens judeus contra as mulheres; depois, o da cuia comum, pois, um judeu não podia beber água na mesma cuia que um samaritano (pois se ele o fizesse estaria imundo e ficaria 40 dias sem poder prestar culto a Deus); depois, quando começou a falar com a mulher, Jesus a tratou como se tratava um mestre, pois ficaram discutindo assuntos teológicos. E mais, Jesus ofereceu Água Viva (o Espírito Santo) para aquela mulher já cansada de tanto tabu, de tanto divórcio, só porque tinha opinião própria, e de, agora, estar exposta ao vitupério por causa de uma sociedade preconceituosa. A Água Viva, a presença do Espírito Santo, seria a vida eterna dentro dela, que a tornaria uma pessoa acima de qualquer preconceito, ou melhor, além de qualquer preconceituoso.

Quando qualquer pessoa trata o próximo com e a partir do preconceito, essa pessoa demonstra ser um assassino em potencial, e se torna réu do inferno. Estamos assistindo isso no Brasil cada vez mais. Em pleno século XXI está ficando cada vez pior ser negro no Brasil, e eu vejo isso dentro da igreja. Esse preconceito deve estar consumindo Jesus, no que resta de seus sofrimentos pela Igreja.

Do quê se alimenta alguém que fez jejum de si mesmo? Ele se alimenta de libertar o próximo, de todos aqueles que não conseguem fazer jejum de si mesmo. E nesse mundo moderno, nós temos o preconceito racial sendo retomado ao nível da náusea, e temos esse preconceito com as mulheres que estão sendo tratadas, cada vez mais, como se todas elas fossem escravas sexuais: na violência que sofrem no ambiente doméstico, nas violações, na forma como são tratadas e na forma como são expostas na mídia, como se fossem mercadorias.

Então, do quê que se alimenta alguém que faz jejum de si mesmo? Se alimenta da disposição e da disponibilidade nas mãos de Deus para libertar todos aqueles que sofrem preconceito por parte de gente que se recusa a fazer jejum de si mesmo. E a denunciar todo esse nível de preconceito. 

Jesus libertou essa mulher de uma forma impressionante. Jesus ainda vai quebrar mais preconceitos, porque, quando chegam os judeus, seus discípulos, eles se admiram. Nesse trecho: “Os discípulos chegaram e se admiraram”, é interessante notar a reação descrita - o ‘se admiraram’ é levar um susto, se surpreender. Como se eles estivessem dizendo: “o que deu nele?” Mas como era Jesus, eles não disseram nada. 

Então começaram a oferecer comida para Jesus, que disse ter uma comida que ninguém conhecia, e que a comida, que ele tinha, era fazer a vontade daquele o havia enviado. “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou a realizar a sua obra”. Qual é a obra de Deus? Libertar os seres humanos de toda forma de opressão, a começar pela opressão que nasce do preconceito, que é a opressão mais comum porque é a menos rechaçada. E é a menos enfrentada porque é socialmente aceita. Por exemplo, é socialmente aceito um sujeito fazer piada às custas das mulheres ou dos pretos, ou de quaisquer etnias. A discriminação foi assimilada. E as mulheres se submetem, pois tem de sobreviver, e a maioria dos negros também se submetem, pois, às vezes, parece que não há o que fazer.

Este é um país que assassina pretos e pobres, é uma veia aberta na rua, o sangue jorra nas sarjetas desse país. A barbárie, o preconceito, a discriminação, o desrespeito. Se eu fosse dar outro nome para essa mensagem, eu daria “Jesus contra o Brasil”. Esse país preconceituoso, e em muitos casos, preconceituoso em nome de Deus, que é um acinte, um achincalhe da fé.

O que Jesus fez com a mulher samaritana foi quebrar preconceitos: um atrás do outro. certamente, muito mais do que nos é possível imaginar. Estamos há dois mil anos do evento, e, por causa do nosso limite, em relação à cultura, não conseguimos ter toda a ideia do que estava acontecendo ali. 

É o mesmo caso de Marta e Maria, quando Marta estava preocupada arrumando a casa e exigindo a presença de Maria, enquanto Maria estava desfrutando da presença de Jesus. Parece que Jesus está sendo injusto com a Marta, porque ela realmente estava tendo trabalho, mas não era essa a questão. A questão é que Maria estava sentada aos pés de Jesus ouvindo os ensinos dele, e isso só era permitido aos homens. Só os homens podiam ser discipulos, as mulheres não, então as mulheres não se assentavam aos pés dos mestres. Marta estava tentando salvar a Maria da vergonha, e Jesus do vexame. Mas Jesus aceita a presença de Maria, o que significava que ele aceitava Maria como discípula, e adverte Marta sobre sua agitação. Na verdade, o que Jesus estava dizendo é: ‘Marta, você também devia se sentar aqui’. Não temos ideia de quantos tabus e preconceitos que Jesus rompeu.

A pergunta que nós fizemos foi: do quê se alimenta aquele que fez jejum de si mesmo? Ele se alimenta de ser instrumento de Deus para a realização da sua obra. E qual é a obra de Deus? Libertar os homens de toda a sorte de opressão, a começar pelo preconceito. Essa é a obra de Deus.

Aquela mulher levou todos de sua aldeia para encontrar com Jesus, e eles se converteram. Jesus quebrou mais um tabu, pregou o evangelho, apresentou-se, ele o Messias de Israel, aos samaritanos, e os samaritanos creram nEle. Os judeus devem ter ficado muito irritados com Jesus!

Que nós, a Igreja de Jesus, entendamos qual é o nosso papel na Terra, temos de sair dessa religião individualista, que vive pedindo benção para Deus, mas nunca se torna benção na mão de Deus. Por quê esse país tornou-se esse câncer exposto quando a fé cristã parece crescer tanto? Porque a fé cristã que está crescendo, não é a fé que, de um lado faz jejum de si mesmo, e, de outro lado, se alimenta em realizar a obra de libertação de Deus.
Para nós, homens, cumprirmos o nosso papel masculino e sermos os sacerdotes da nossa casa, nós não precisamos ter medo da inteligência, quanto mais brilhante for a pessoa que estiver do nosso lado, mais fácil é ser sacerdote. Os homens estão abrindo mão da sua postura de sacerdotes do lar e estão, cada vez mais, se assumindo como gente que se defende, sendo cada vez mais violentos. E a violência é a arma dos incompetentes, dos que perderam o seu sentido de função na história, e perderam a sua identidade.

Homem, seja o sacerdote da sua casa, seja o sujeito que leva a sua casa a orar, seja o sujeito que leva a sua casa para Deus. E que Deus o tenha agraciado com esposa e filhos brilhantes. E não pense que autoridade é a arte de mandar, autoridade é a arte de ser admirado, e quanto mais uma pessoa aprende a ouvir e a ponderar, antes de decidir, mais admirado é. Porque na multidão dos conselhos há sabedoria.

Jesus quebrou muitos tabus sem, em nenhum momento, abrir mão da sua posição. Nesse texto, Jesus denunciou o preconceito de uma geração, libertando uma mulher de um estigma negativo, e, na prática, dizendo para ela: “ Eu vim lhe trazer Vida Eterna! E a Vida Eterna fará você transcender, superar qualquer preconceito e enfrentar os preconceituosos.” Que Deus nos abençoe!  

terça-feira, 20 de maio de 2014

Carta aberta ao programa "Academia em Debate", do Centro PresbiterianoAndrew Jumper, de Pós-graduação, na Tv Mackenzie (digital experimental)apresentado pelo Rev. Doutor Augustus Nicodemus Gomes Lopes, na suaedição n° 37.


Raramente me presto a tecer considerações sobre as tentativas de análise à chamada Teologia da Missão Integral, feitas em território nacional, porque, na maioria das vezes, tais intentos são pautados pela ignorância, pela má fé, pela desonestidade intelectual, pela ausência de rigor acadêmico e pelo mero preconceito. 

Desta feita, entretanto, por se tratar de interlocutor que merece audição, posto uma carta aberta ao programa "Academia em Debate", do Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper, apresentado pelo Rev. Doutor Augustus Nicodemus, que priva do respeito de todos os seus pares, entre os quais me incluo.

O programa convidou dois pastores e filósofos: Rev. Jonas Madureira e Rev. Filipe Fontes para tecerem comentários à TMI. Apesar de entender que os comentadores foram, possivelmente, traídos pela tempo escasso que lhes foi concedido, por força do limite natural ao veículo da comunicação; gostaria de tecer algumas impressões sobre o conteúdo das exposições. .

Celebro a intenção do programa, porém, os comentários não manifestaram análise técnica, uma vez que as afirmações não foram sustentadas por referencial teórico, não deixando aos espectadores outra opção, senão, a de crerem na veracidade das falas, pela suposição de estarem diante de autoridades competentes, embora não tenha sido apresentada nenhuma credencial dos mesmos como estudiosos do tema em questão, o que não tolda a qualidade dos mesmos nas áreas em que tenham se especializado.

As colocações dos convidados não elucidaram o tema, suas críticas, de fato, por falta de rigor, mais pareceram meros ataques, e soaram como opiniões pessoais, acabando por correr o risco de ter prestado um desserviço ao debate teológico, sempre tão necessário, principalmente, neste momento da Igreja brasileira, tão vilipendiada por causa de maus exemplos, principalmente, midiáticos, e acossada por tantos ventos doutrinários.

À guisa de contribuição, como simpático ao conteúdo veiculado pelos teólogos proponentes dessa reflexão teológica, a TMI, dos quais destaco, por antigüidade, Renê Padilla, Pedro Arana e Samuel Escobar, faço as seguintes e próprias menções sobre as ênfases da TMI: 

1- A TMI nasce das reflexões, principalmente, dos teólogos citados, nas décadas de 50 e de 60, e que foram apresentadas nos CLADEs, Congressos Latino-Americanos de Evangelização, realizados  em Bogotá - Colômbia  (1969), Huampani - Peru (1979), Quito - Equador (1992 e 2000), Tais reflexões foram iniciadas e propostas antes do que veio a ser conhecido como Teologia da Libertação (Gustavo Gutierrez, 1971), também latino-americana.

2- O que há de coincidente entre ambas teológicas latino-americanas é o fato de serem teologias da Práxis, isto é, reflexões teológicas sobre a ação da igreja, como propagadora do Evangelho, no cotidiano da sociedade em que está incrustada.

3- A ênfase da reflexão da TMI, sobre a prática da Igreja, voltada para o cotidiano, parte da proposição do Prof Padilla, de que a evangelização não desconsidera o contexto do evangelizando.

4- A proposição de Padilla se sustenta no declaração do Senhor Jesus, de que o Evangelho é do Reino (Mt 24.14; Lc 4.43), portanto, tendo como conteúdo as boas notícias da chegada de uma nova ordem mundial (Dn 2.44), manifesta pela Igreja, porém, só implantada na volta visível e triunfal do Cristo. Daí há pecado pessoal e pecado estrutural. E para ambos pecadores a Igreja propõe arrependimento.
5- Só será possível participar dessa nova ordem pelo novo nascimento, que é sempre pessoal, porém, graças às boas obras, que são a luminosidade da Igreja, a sociedade, em geral, será beneficiada, e levada a dar graças a Deus (Mt 5.16).

6- O chamado Pacto de Lausanne é fruto do Congresso Mundial de Evangelização realizado, em 1974, na cidade de Lausanne, na Suíça; graças ao trabalho de John Stott, reconhecido teólogo Anglicano, já falecido, que promoveu o encontro entre a teologia dos irmãos do Norte, com a contribuição missiológica da reflexão teológica latino-americana, denominada de TMI, e com as contribuições africanas e asiáticas, cujo resultado foi sintetizado na frase: "O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens".

Onde "o Evangelho todo" é compreendido como o poder de Deus para a Salvação de todo o que crê, assim como o poder de Deus para interferir na estrutura da sociedade, para dar sobrevida à humanidade, pela promoção da justiça. Como se pode verificar na irrupção da chamada modernidade, a era dos direitos humanos, iniludível fruto do cristianismo.

Onde "o homem todo" é a compreensão do ser humano como ser complexo, com potencial cognoscente, religioso, fabril, econômico, social, político, comunitário, lúdico, artístico - que a tudo afeta e por tudo é afetado - portanto, alcançado pelas boas notícias do Reino, quando os sinais da presença do Reino se manifestam nele, e em tudo o que o afeta e por ele é afetado.

Onde a proposição "todos os homens" compreende a totalidade das nações humanas, que devem ser alcançadas pelo anúncio do evangelho do Reino de Deus, tanto no âmbito pessoal-familiar, como no âmbito da organização sócio-política, e que serão julgadas por suas práticas no trato do ser humano, frente a forma como se organizaram, e construíram os relacionamentos internacionais e intersociais (Mt 25.31-46). 

7- A TMI é Ortdoxa, sustentando os paradigmas histórico-bíblicos da fé protestante, porém, ampliando a compreensão missiológica da Igreja como agência da "Missio Dei", uma vez que toda a iniciativa é do Altíssimo Deus Trino. Talvez, nessa compreensão, seja melhor intitular a reflexão de "A Teologia Com Missão Integral".

8- A TCMI faz exegese histórico-gramatical; e sua hermenêutica parte da sacralidade, inerrância e infalibilidade da Bíblia, na busca pelo mais próximo possível do sentido original, porém, no afã de aplica-lo da forma mais compreensível, relevante e provocadora de transformação ao contemporâneo; sua abordagem fática serve-se da interdisciplinariedade, uma vez que, o que chamamos de realidade demanda muitos e distintos observadores para poder ser proposta como tal. E procuramos discerni-la para entender as perguntas a que devemos responder, nunca para nortear ou compor com o kerigma, a proclamação. 

9- O referencial teórico da TCMI é a doutrina da presença (Lc 17.21) e da iminência do 
Reino de Deus, onde o Reino é compreendido como o Governo do Ungido pela implantação da sua Justificação e Justiça. A Igreja, então, se vê, no cotidiano, como anunciadora da justificação, e sinalizadora da presença e do princípio do Governo do Ungido, pela busca por fazer manifesto e aplicado o conceito judaico-cristão de justiça.

10- A priorização do pobre não é vista como uma opção, mas, como demanda do Cristo, que apresentou a pregação do evangelho aos pobres como uma de suas credenciais messiânicas (Mt 11.5).

Sem mais, no anseio de colaborar com o debate teológico, que desejo, um dia, se instaure, 

Ariovaldo Ramos


terça-feira, 22 de abril de 2014

Os dons só cessam com a morte!



“O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado.” 1Co 13.8-10

Paulo nos diz que um dia não precisaremos mais de profecias, nem de dons, nem de conhecimento. Porque estas possibilidades compõem o que ele chama de “o que é em parte”. Na chegada do perfeito, o que é em parte será aniquilado.

Por que em parte conhecemos? Segundo João Calvino “a intenção de Paulo é mostrar que o fato de recebermos conhecimento e profecia é precisamente uma prova de que somos imperfeitos. Portanto ‘em parte’ significa que não fomos ainda aperfeiçoados. Conhecimento e profecia, portanto, terão lugar em nossas vidas enquanto a imperfeição fizer parte de nossa existência terrena, pois eles nos assessoram até que plenitude nos atinja.” (Comentário à Sagrada Escritura, Exposição de 1Coríntios, 1ª Edição em Português, São Paulo, 1996, Edições Paracletos, pg. 402)

Os dons durarão até chegar o que é perfeito. Quando chegará o que é perfeito? O que Paulo está dizendo? Segundo João Calvino  “ele está dizendo: ‘Quando a perfeição chegar, tudo o quanto nos auxiliou em nossas imperfeições será abolido.’ Mas, quando tal perfeição virá? Em verdade, ela começa com a morte, quando nos despirmos das inúmeras fraquezas juntamente com o corpo; porém, ela não será plenamente estabelecida até que chegue o dia do juízo final.” (op. cit., pg. 403)

Então, enquanto vivermos precisaremos dos dons, do conhecimento e da profecia. É claro que “o benefício oriundo dos dons só é eficaz enquanto estivermos nos movendo para o alvo” (op. cit. Pg 402), isto é, os dons são os acessórios necessários para vivermos conforme a nossa vocação. “Paulo poderia ter posto nestes termos: ‘Quando tivermos alcançado o ponto de chegada, então as coisas que nos ajudaram no percurso deixarão de existir.’” (op. cit. Pg. 403) Só com a morte a gente deixa de precisar dos dons, do conhecimento e da profecia, não que a morte seja o que é perfeito, o que é perfeito vem com o juízo final: a nossa ressurreição!


Cessacionismo é liberalismo teológico e Determinismo é paganismo; não há nada de estranho no fato de andarem juntos.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Corrupção (o beabá)

quando o poder não é vigiado, o governo é exposto à corrupção!
há governo corrupto porque há corruptores!
os corruptores são os dispostos a trocar a ética por seus interesses!
e a corrupção vira modo de governo!

e esse modo de governo se impõe ao mais simples cidadão!
que fica condenado à exploração econômica, à ignorância e à alienação midiática!
pois não tem dinheiro para acessar ao que deveria ter por direito!
e acaba desejando poder corromper, e sendo corrupto onde consegue...
e a corrupção passa a ser um modo de viver!

um governo que pode ser comprado não tem força moral!
um governo sem moral não tem como enfrentar bandidos!
um governo que teme a bandidos não protege o cidadão!
mesmo os que o compram por seus interesses!
e os corruptores terão de pagar também a bandidos! 

e assim o mal se impõe ao bem!
os bandidos passam a controlar até a sua punição!
e os nossos filhos são viciados impunemente!
e os miseráveis são cooptados pela força!
e os bandidos organizados reorganizam a nação!
juízes, governadores e polícia e imprensa passam a servir aos bandidos!

e todos, de alguma forma, se tornam bandidos!
e até Deus passa a ser apresentado como corruptível!
porque até os sacerdotes viraram bandidos!
pois a corrupção se fez parte da cultura!

que santos e profetas clamem ao Pai por misericórdia!
mesmo que seja o grito do sangue caindo na terra!
como o sangue de Abel que clamou por justiça!

que os homens de bem resistam!
que os homens de bem abracem a ética!
que os homens de bem se organizem para vigiar o poder!
que os homens de bem exijam as reformas que permitirão a vigilância!
que os homens de bem deixem de ver a miséria como natural!
que os homens de bem exijam que a riqueza seja distribuída!
que os homens de bem lutem para que a justiça corra como rio perene!

que os homens de bem sejam éticos:
mesmo que seja num simples cruzamento no trânsito;
mesmo que seja o jogar um papel no lixo...
só o amor ao bem pode vencer ao vício do mal!

quinta-feira, 20 de março de 2014

A Teologia da Missão Integral e o Marxismo


Ariovaldo Ramos

Desde que ouvi falar de missão integral em 2007, enquanto fazia uma escola da JOCUM, fiquei interessado e comecei a pesquisar sobre o tema. Adquiri alguns livros, baixei artigos da internet, assinei Ultimato, enfim, quis saber quem falava sobre missão integral e o que falavam sobre missão integral. Em meio a muitas leituras e questionamentos, não sei se estou sendo tolo, mas a minha pergunta é: a teologia da missão integral dialoga com o marxismo ou mesmo se apropria de alguns pressupostos marxistas? Se sim, como articular cosmovisões contrárias uma da outra?
Filipe Reis, Parintins, AM


Bem, Filipe, nós vivemos num mundo profundamente influenciado pelo marxismo. Então, é impossível dialogar com o mundo sem dialogar com o marxismo num nível ou noutro. O marxismo mudou a face do Ocidente por, pelo menos, setenta anos. Estabeleceu-se como fato histórico, vimos surgirem blocos socialistas no mundo todo. E a grita do marxismo era a de que o capitalismo estava na contramão do que produziria felicidade humana, e que era preciso chegar a uma nova fase na história da humanidade a que eles chamaram de comunismo, que era, segundo Marx, o sucedâneo natural do capitalismo. As experiências revolucionárias marxistas não comprovaram a tese, porque as grandes nações, que se tornaram socialistas, do ponto de vista marxista-leninista, deram ou tentaram dar um salto do feudalismo para o comunismo, já que nem uma delas havia passado pelo capitalismo propriamente dito. Mas estão aí, fizeram história, milhares de escritos, de reflexão por todo o mundo, em todas as línguas. Então, é impossível falar ao mundo sem dialogar com os que também tentam interpretar e até mesmo transformar o mundo. Neste sentido, a Teologia da Missão Integral dialoga com o marxismo assim como dialoga com A riqueza das nações de Adam Smith, com o capitalismo, porque nós estamos tentando responder a grande pergunta humana que é “qual é o sentido da vida, para o que é que nós existimos, de onde viemos, para onde vamos e como devemos viver?”. Então, nós dialogamos com todo mundo, inclusive com outras confissões de fé. Nós estamos lutando pela humanidade como todo mundo.

Agora, se o que você está perguntando é se a Teologia da Missão Integral lança mão do referencial teórico marxista, a resposta é NÃO. A TMI considera as análises marxistas, entende a validade de muitas de suas análises, mas não lança mão do referencial teórico do marxismo, porque a Missão Integral se estriba na recuperação de dois conceitos: 1- O conceito de justiça no profetismo hebraico. No profetismo hebreu você tem a noção de justiça, ela vai aparecer nos grandes profetas que vão dizer, como Amós (5.24), que a justiça deve correr como um rio que nunca seca. Todos os profetas hebreus levantaram a questão da justiça e são eles que introduzem esta noção da justiça como um critério transcendente: justiça não é mais uma relação de poder entre fracos e fortes, entre vencedores e vencidos;  justiça é uma demanda divina, uma demanda de Deus; ele exige justiça, Deus exige que os pobres sejam tratados com decência, exige, de fato, que não haja pobreza, que haja libertação econômica, social e política (essa noção aparece no Jubileu e no Ano da Remissão – Lv 25; Dt 15.1-10). A justiça nasce no coração de Deus e é introduzida na história humana pelos profetas hebreus, são eles que trazem a noção de justiça para a história e trazem-na como um dado transcendente, e não como uma conclusão imanente, ou seja, não foram os seres humanos pensando sobre si, sobre a história, sobre a sociedade que chegaram à noção de igualdade, de justiça, de que não pode haver pobre; pura e simplesmente. Foram os profetas hebreus que trouxeram este elemento para a história humana, esta visão de que há uma demanda da parte de Deus por igualdade entre os homens, por dignidade para todos os homens, pelo fim da pobreza, pelo respeito ao diferente, pelo abrigo ao estrangeiro, pela noção de direito humano. E isso vem diretamente de Deus, está espalhado por todo o Antigo Testamento, desde a lei de Moisés que é reforçada pelo profetismo hebraico que, na verdade, é um trabalho de recuperação do espírito da lei de Moisés, que clama por justiça. Este é o primeiro referencial da Missão Integral. Você verá isso nos escritos de René Padilla, nos escritos de Samuel Escobar, de Orlando Costas, de Pedro Araña e muitos outros.

2- O outro referencial da Teologia da Missão Integral é a recuperação da noção do Reino de Deus e sua justiça, a ideia de que o Reino de Deus é um outro sistema que se opõe ao sistema vigente, que se opõe ao sistema capitalista e ao sistema soviético. É um outro sistema que vem não para estar ao lado dos sistemas em pauta, mas para substituí-los, para erradicá-los. Isso aparece no profeta Daniel que, quando responde ao sonho de Nabucodonosor, fala sobre a pedra que é lançada por mãos não humanas contra a estátua. A estátua, no sonho de Nabucodonosor, sintetiza todas as tentativas humanas de resolver o problema humano sem considerar a hipótese de Deus ou sem considerar a revelação de Deus, tudo o que os homens tentaram em todos os níveis: o feudalismo, o capitalismo, o comunismo; está tudo lá na estátua. E a pedra é o Reino de Deus, que vem e derruba a estátua, triturando-a, desfazendo todos os componentes da estátua até transformá-la em pó, pó que é varrido pelo vento de modo que da estátua não fica nem lembrança, e a pedra cresce, alarga-se e toma toda a terra, ou seja, uma nova realidade assume o controle da história e essa nova realidade é o Reino de Deus.

A Teologia da Missão Integral vai recuperar essa noção de Reino de Deus que aparece com força total no Novo Testamento, a partir da pregação de João Batista, e que é referendada e ratificada pela pregação de Jesus de Nazaré: arrependei-vos porque é chegado o Reino dos Céus. Nos quatro Evangelhos você  verá que os fariseus, os saduceus, os mestres da lei, que viviam inquirindo Jesus, fizeram perguntas, de toda ordem, de todo tipo, mas nenhum deles perguntou o que era o Reino dos céus. Todos eles sabiam do que João e Jesus estavam falando, eles sabiam o que era o Reino dos Céus: a chegada da realidade definitiva, a realidade que iria se impor á história, que iria conquistar a história, que iria se estabelecer na história e iria dar o tom à história. É isso que a Teologia da Missão Integral recupera: a noção do Reino de Deus como um sistema que engloba tudo o que afeta o homem e tudo o que o homem afeta. Engloba, portanto as questões social, política, econômica, ética, a moral, educacional, do trabalho, do direito, porque tudo isso afeta o homem e é afetado pelo homem, por isso é um sistema só, e esse sistema precisa ter um novo princípio vetor que segundo as Escrituras é o Reino de Deus. Assim, o Reino de Deus é um novo sistema onde só a vontade de Deus é feita, e é um sistema econômico, político, social, moral, ético, educacional, está tudo contido no Reino de Deus.

A Teologia da Missão Integral é uma proposta Ortodoxa, que amplia a missiologia da Igreja, portanto uma proposta de Evangelização, de proclamação da necessidade da conversão ao Cristo, na sua forma mais radical, mas não tem a pretensão de que seja a Igreja que venha a implantar o Reino de Deus, ela tem a intenção de encorajar a Igreja a sinalizar que o Reino de Deus já está presente, e trabalha para que a Igreja seja uma mostra do mundo vindouro “as primícias” do Reino de Deus, como Tiago (Tg1.18) nos advertiu. Sendo assim, a partir da Igreja os paradigmas do Reino dos Céus devem ser vividos, e aí a Igreja, como uma das protagonistas da história, precisa ser proativa e sinalizar a presença do Reino a partir de todas as suas possibilidades, e influenciar o mundo com os padrões do Reino de tal maneira que, guardadas as devidas proporções, o mundo se torne o mais parecido possível com o Reino vindouro. E isso vai significar a chegada da paz, da igualdade, do direito, da responsabilidade moral, de uma sociedade sem classes, de uma sociedade justa, de uma sociedade igualitária, solidária, isso é a pregação da Teologia da Missão Integral.

Você pode dizer que aqui ou ali nós esbarraremos em conceitos marxistas, mas eu preciso lembrar a você de que Marx veio depois da Igreja Primitiva, veio depois de Jesus, o Cristo. Não somos nós que estamos buscando conceitos em Marx, foi Marx que buscou os conceitos dele na tradição judaico-cristã, e tentou criar um projeto de uma vida semelhante ao que a Igreja primitiva viveu. Porém o filósofo quis atingir essa realidade sem a necessidade da hipótese de Deus, e por métodos que a Ortodoxia Cristã não apoia.


Nós não trabalhamos com o referencial marxista porque o nosso referencial é anterior. Embora aqui e ali, nós possamos ter intersecções com os marxistas, se isso acontecer, será porque, como disse o Karl Jaspers, nenhuma filosofia do Ocidente foi desenvolvida sem que a Bíblia fosse o pano de fundo. E nem Karl Marx escapou disso. (baseado em artigo publicado na Revista Ultimato)

sexta-feira, 7 de março de 2014

Brilhe a vossa luz (Mt 5.16)

2 Pedro 3:13
"Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça."

O movimento redentor de Deus, em relação à criação, é a renovação dos céus e da terra. E Deus o fará para que, finalmente, a justiça se estabeleça na criação.

Então, viver, hoje, segundo a vontade de Deus, exige que se busque que a justiça corra como um rio que nunca seca (Amós 5.24).

Segundo Amós, cap. 5, Deus queria que em Israel fosse feito juízo, isto é, que  as advertências proféticas fossem ouvidas; que o pobre não fosse  pisado e nem extorquido; e que o justo fosse honrado e não afligido.

E Jesus, em Mt 25.31-36, coerente com a fala profética, diz que Ele quer que os famintos sejam alimentados; que os sedentos sejam dessedentados; que os forasteiros sejam acolhidos; que os desnudos sejam vestidos; que o enfermo seja assistido; e que o prisioneiro seja tratado com dignidade.

Portanto, viver, segundo a vontade de Deus, na história, a partir do novo nascimento, como natural ao ato de pregar o Evangelho, tendo em vista que todo o movimento redentor culminará em justiça na Terra, é trabalhar em função dessa justiça, que é o padrão do Reino (Mt 6.33).

É, enquanto anunciamos o Cristo, e porque o anunciamos, trabalhar:  1- para que haja segurança alimentar e nutricional, para que todos tenham alimentação adequada;  2- para que haja saneamento básico, de modo que todos tenham acesso à água potável, e todo esgoto e todo lixo seja tratado, e o meio ambiente seja preservado;  3- para que haja política de direitos humanos, de modo que ninguém se sinta forasteiro, isto é, discriminado;  4-  para que haja programa de moradia, transporte, emprego e educação, para que toda a nudez (fragilidade) humana seja coberta, e todos possam viver com qualidade de vida, que, necessariamente, passa pelo equilíbrio ambiental;  5- para que haja amplo e universal programa de saúde; e,  6-  para que o sistema judiciário e prisional privilegie a dignidade humana e a igualdade entre os seres humanos. 


São as boas obras dos seguidores do Cristo na história, porque os renascidos já vivem, nessa história, a partir da perspectiva dos novos céus e nova terra. #missaointegral

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Mt 2.19-23


Tudo indica que Herodes morreu meses depois da fuga do José para o Egito.

Arquelau, filho de Herodes assumiu o trono, e se revelou, em pouco tempo, mais cruel do que o seu pai. Arquelau optou por essa linha de conduta, para demonstrar que era filho legítimo de Herodes. Tanto fez, que Cesar Augusto, em pouco tempo, o depôs, substituindo-o por Pôncio Pilatos.

Como a volta de Jesus à terra de Israel, coincide com a constatação da maldade de Arquelau, o que deve ter levado algum tempo, desde a posse deste, é de se supor que tenham ficado no Egito, por cerca de um ano e meio.

Nesse texto há uma mudança de ritmo entre José e Deus. 

José, que, até então, estava caracterizado por uma obediência sem titubeio, tem medo de cumprir a orientação recebida de Deus.

O que houve?

Perdeu, José, a confiança absoluta que demonstrara nas orientações do Pai Nosso? Ou ganhou José uma nova característica, nesse relacionamento com o Pai Nosso e com o Filho?

Quando o Pai Nosso mandou José fugir, ficou claro que os dons, e a inteligência, que o próprio Pai, por sua graça, lhe havia dado, estavam a ser evocados... E José, que os havia usado em Belém, para, diante do inóspito, criar uma opção de conforto para Maria, passou a usá-los no cuidado do filho.

José compreendeu que o Senhor nos chama para uma obediência inteligente, onde o nosso clamor a Ele, sempre necessário, é atendido tanto pela direção precisa, quanto pela participação da gente, na solução da vida, a partir dos dons e talentos que Ele mesmo nos concedeu.

E a gente de servo passa a cooperador de Deus. O cooperador, mais do que saber o que quer o Pai, que ele faça, sabe o que Deus está a realizar; então, a partir dessa sabedoria, faz o que deve como deve, porque compreende o que está a ser feito por Deus.

Este movimento de José demonstra, também, que ele assumiu o filho, não só por adoção, mas, por paternidade.

Na Trindade encontramos os princípios da paternidade, da filidade e da maternidade.

Todos somos filhos ou filhas, logo, somos chamados a vivenciar o princípio da filidade, isto é, a crescer na graça e na sabedoria, diante de Deus e dos homens, e a aprender a confiar, a obedecer e a decidir, sem perder a criancitude, ou seja, sem perder a fé, a singeleza e a alegria de viver.

Claro, isso passa pela aplicação dos princípios da maternidade e da paternidade.

Aos seres humanos do sexo masculino, é dado a possibilidade de expressar o princípio da paternidade.

À paternidade cabe a provisão material e emocional; a proteção e a segurança na sociedade e na história; e a direção espiritual, ética e moral.

Nesse movimento José demonstra que assumira, plenamente, a paternidade. Quase dá para imaginar ele falando ao Pai: “Tenho medo de levar nosso filho para a Judéia, pois, pesquisei, e soube que Arquelau é pior que Herodes, peço-lhe que considere a possibilidade de levarmos o nosso filho para um lugar mais seguro.”

E o Pai Nosso concordou com José, e lhe enviou orientação para levar a criança para a aldeia de Nazaré. Este passo cumpre outra profecia, outra antecipação da história, por parte de Deus, esta, porém, não resulta de determinação pura e simples, mas, é fruto da parceria entre Deus Pai e o homem José, cooperador de Deus, portanto, resultado de construção.

Deus, por sua graça, permite que os seres humanos, alvos da história da redenção, que Ele, por definição, administra, sejam, nessa condução, dEle cooperadores